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DISTÚRBIOS ALIMENTARES e SEXUALIDADE, por Inês Tomada



 

Inês Tomada, especialista em nutrição clínica, é certificada em perturbações do comportamento alimentar. Dedica-se há mais de 20 anos à nutrição e ao comportamento alimentar da mulher, da criança e do adolescente, onde se destaca o impacto da alimentação na prevenção de doenças e na promoção da saúde e bem-estar físico e emocional. Há cerca de 15 anos é também professora universitária.

 

O que são distúrbios alimentares

Os distúrbios alimentares (ou perturbações do comportamento alimentar) são, por definição, doenças psiquiátricas que se caracterizam por uma perturbação persistente na alimentação e que comprometem significativamente a saúde física e o funcionamento psicossocial. Por outras palavras, são doenças em que de uma forma geral há emoções, atitudes e comportamentos excessivos (e obsessivos) em tudo o que se refere ao peso, imagem corporal e à comida e que têm forte impacto na saúde física e psicológica.

 

Qual a diferença entre a anorexia, bulimia e a obesidade?

Anorexia, bulimia e obesidade, são doenças distintas e com critérios clínicos muito bem definidos. De uma forma muito simples, podemos dizer que na anorexia nervosa há um medo intenso em engordar que leva a uma restrição extrema da ingestão de alimentos (muitas vezes, as pessoas passam o dia com ½ copo de água e 1 maçã). Mesmo quando estas pessoas já apresentam um peso muitíssimo baixo, continuam a ver-se acima do peso, ou seja, apresentam aquilo que designamos por distorção da imagem corporal. Já na bulimia nervosa, habitualmente as pessoas mantêm um peso considerado “normal”, mas têm episódios de compulsão alimentar várias vezes por semana, isolando-se e comendo grandes quantidades de comida em pouco tempo. Estes episódios são seguidos de comportamentos compensatórios, isto é, vómitos, recurso a laxantes e/ou prática extenuante de exercício físico.

Quanto à obesidade, no contexto dos distúrbios alimentares, a obesidade não é um distúrbio alimentar propriamente dito, mas sim a consequência de um distúrbio designado por perturbação da ingestão alimentar compulsiva, ou mais simplesmente, compulsão alimentar. O que distingue a compulsão alimentar da bulimia nervosa é o facto de os episódios de compulsão alimentar não serem seguidos de comportamentos compensatórios.

 

Como é que estas doenças têm impacto na saúde física e mental de uma pessoa?

Todas estas doenças são extremamente debilitantes do ponto de vista físico e psicológico. De uma forma transversal, e muito resumidamente, em termos físicos: perda ou ganho excessivo de peso, desnutrição (independentemente do peso corporal), problemas cardíacos, ósseos, gastrintestinais e endócrinos. Já em termos mentais: aumento da ansiedade, depressão e isolamento social, que se reflete em problemas de relacionamento, no trabalho ou na escola, e em outras áreas significativas.

 

Quais os sintomas mais comuns para que se possa ter um diagnóstico de um doente com este tipo de distúrbios?

O diagnóstico nem sempre é fácil, e muitas vezes ocorre na sequência de complicações médicas. Os doentes vivem a doença silenciosamente, porque têm vergonha de admitir que toda a vida deles gira à volta da comida [independentemente do tipo de distúrbio] e que têm um problema com a comida.

De uma forma geral, uma pessoa com um distúrbio alimentar não tem necessariamente, de apresentar um peso extremo. Muitos doentes mantêm uma aparência saudável, mas os “traços” do distúrbio estão bem presentes. Por exemplo, mudanças bruscas de humor, perda de interesse pelas atividades habituais, isolamento social devido à forte preocupação em comer em público por medo de perder o controlo e comer demasiado, desculpas constantes para não comer, excessiva preocupação com a comida, etc…

É importante referir que apenas uma pequena minoria procura tratamento, o que faz com que a doença permaneça não diagnosticada por muito tempo e vá evoluindo. E mesmo após o diagnóstico é frequente estes doentes desvalorizarem a necessidade de tratamento.

 

Que tipo de tratamento nutricional existe para tratar distúrbios alimentares como a anorexia e a obesidade?

Antes de mais, importa dizer que o tratamento tem de envolver sempre uma abordagem multidisciplinar. A equipa deverá incluir, pelo menos, um médico, um nutricionista e um psicólogo. Não se pode dizer que exista um tratamento nutricional específico para os distúrbios alimentares. O que é importante é que o doente tenha consciência que tem uma doença e que precisa de ajuda. Uma das prioridades é ajustar progressivamente a ingestão alimentar às suas necessidades, enquanto se trabalha o estabelecimento de uma boa relação com a comida. Por exemplo, ajudar a identificar os “alimentos-gatilho” (alimentos que levam a que o doente sinta se o comer não consigo parar) e os “alimentos-medo” (alimentos que o doente se recusa comer porque acredita que o vão engordar), e dar alternativas a esses alimentos, desmistificando falsos conceitos.

 

Que tipo de relação existe entre a anorexia ou obesidade e de que forma a questão da autoimagem corporal está ligada à sexualidade?

De que forma é que estas patologias podem afetar a libido, desejo, excitação e a saúde sexual?

Pessoas que sofrem de anorexia ou obesidade relatam mais frequentemente dificuldades em sua vida sexual ou em formar relacionamentos íntimos?

Excelente questão! Quer na anorexia, quer na obesidade secundária há uma perturbação alimentar, há claramente perda de autoestima. Perda de autoestima que surge na sequência da perceção que a pessoa tem do seu corpo. A vergonha e a insatisfação com o corpo, claramente influencia o seu bem-estar e a confiança nos relacionamentos, sobretudo em contextos íntimos. Portanto, no que respeita à autoimagem, permito-me dizer que “muito mais é o que as une, daquilo que as separa”!

Sem querer explorar mecanismos metabólicos e moleculares, nem tão pouco alterações na produção de neurotransmissores associados ao humor e prazer, que ocorrem em muitos destes doentes, e que estão fortemente relacionadas com défices em nutrientes (mesmo na obesidade!), em linha com o que foi dito acima, quando há insatisfação corporal, não raramente ocorre afastamento físico e emocional, criando múltiplas barreiras na relação.

Não nos podemos esquecer que os distúrbios alimentares são doenças psiquiátricas, com sérias e grandes repercussões na saúde física, ao nível de todos os órgãos e sistemas, e que a saúde sexual reflete a saúde física e mental de cada um e vice-versa.

 

                                                                                               

De que forma a pressão social sobre padrões de beleza e sexualidade influencia o desenvolvimento de distúrbios alimentares?

Os media, as redes sociais e a publicidade associam a beleza e a atração sexual a padrões corporais específicos – magreza, musculatura bem desenvolvida e proporções corporais (tamanho das mamas e anca, por exemplo). Promovem corpos estereotipados como sinónimo de sucesso, felicidade e atração sexual. Em pessoas mais suscetíveis e permeáveis às pressões sociais, este conceito gera sentimentos de inadequação, ou seja, a pessoa vê-se como não estando dentro do que é considerado padrão de beleza e deixa de se sentir sexualmente atraente.

A pressão para ser sexualmente atraente pode levar as pessoas a tentar modificar seus corpos, muitas vezes não da melhor maneira, já que priorizam o corpo em detrimento da saúde. Sem dúvida que esta pressão é um fator muito significativo para o desenvolvimento de distúrbios alimentares, seja nos adolescentes e jovens adultos, seja ao longo da vida adulta. A exposição constante a imagens de corpos perfeitos que inundam a sociedade, ao intensificar a insatisfação corporal, podem levar a comportamentos extremos e prejudiciais, como dietas muito restritivas e/ou prática de exercício físico excessivo para atingir o tal corpo fit, ideal e claramente irrealista. Ao mesmo tempo, e porque nem todas as pessoas conseguem passar dias a fio em restrição alimentar e/ou porque não alcançam o pretendido, o stresse, a ansiedade e a frustração podem desencadear episódios de compulsão alimentar, que se podem tornar recorrentes.

 

Qual a diferença na forma como homens e mulheres lidam com distúrbios alimentares e sua relação com a sexualidade?

Não tenho dados para argumentar a relação entre os distúrbios alimentares e a sexualidade em função do género. As evidências mostram que, embora as mulheres tenham maior probabilidade do que os homens de sofrer de perturbações do comportamento alimentar, estas estão a tornar-se cada vez mais comuns nos homens. No entanto, os homens têm menor probabilidade de serem diagnosticados, uma vez que procuram menos tratamento mesmo quando apresentam sintomas evidentes e algumas vezes graves. Para além disto, os distúrbios alimentares são socialmente desvalorizados nos homens.

 

Como é que estes doentes se relacionam com o seu corpo?

Tal como já referido, estes doentes desenvolvem uma relação muito conflituosa e disfuncional com o corpo. Uma relação marcada pela insatisfação e pela distorção da sua própria imagem. Uns continuam a ver-se acima do peso e volumosos quando na realidade estão extremamente magros, e outros podem ter uma perceção exagerada das suas imperfeições e/ou sentir vergonha de partes específicas do corpo. Ainda há aqueles que se encontram claramente com peso excessivo e desvalorizam as suas formas corporais, apesar de gostarem de ter outra aparência. Ou seja, em qualquer dos cenários, há um desconforto e uma não aceitação da sua aparência física, colocando a saúde num plano secundário.

 

Os distúrbios alimentares causam ansiedade e depressão. De que forma estas consequências podem agravar ainda mais o problema?

A relação entre os distúrbios alimentares e a ansiedade e depressão, é bidirecional. Por um lado, os estados de ansiedade e de depressão podem precipitar perturbações alimentares, na medida em que as pessoas podem recorrer à comida como uma forma de lidar com as emoções ou como tentativa de controlo. Em alguns casos, perdem o gosto e interesse pela comida (a comida torna-se inimiga) ou comem excessivamente como forma de conforto (a comida é percecionada como confidente e como forma de acalmar o turbilhão de emoções que sentem). Para além disto, a ansiedade e a depressão conduzem a deterioração da autoestima, agravando a perceção que têm da sua imagem corporal. Por outro lado, a ansiedade e a depressão, podem ter origem na pressão a que estes doentes se impõem para alcançar um corpo “ideal” ou “perfeito” e no medo de julgamento social, levando-os a um ainda maior isolamento e secretismo em relação às suas práticas alimentares.

 

Mudanças na alimentação podem ter um impacto direto na libido ou no desejo sexual?

A alimentação influencia diversos aspetos do corpo, desde os níveis hormonais, fluxo sanguíneo, energia ao bem-estar psicológico. Pelo que, sim, mudanças na alimentação, com a adoção de uma alimentação saudável, podem ter um impacto positivo e direto na libido e no desejo sexual. Ajustar a dieta, incluindo alimentos naturais e nutritivos, e evitar excessos, pode ser uma forma eficaz de promover uma vida sexual mais saudável.

 

Quais os alimentos saudáveis e afrodisíacos que se podem ingerir sem qualquer problema?

Em primeiro lugar, importa saber que afrodisíaco poderá ser qualquer agente ou alimento que desperte o desejo sexual e/ou estimule ou aumente a resposta sexual. Apesar de estarem identificados mais de 100 alimentos ditos afrodisíacos, seja porque estimulam a visão, o paladar ou o olfato, seja porque atuam por analogia, associação ou mesmo sugestão, o efeito de cada um deles depende mais da imaginação e da cumplicidade do casal, do que do alimento em si.

A Food and Drug Association (FDA) tem uma posição clara a respeito dos afrodisíacos: “à data, não há qualquer suporte científico que permita reconhecer a segurança e eficácia de qualquer ingrediente cuja utilização seja como afrodisíaco”. Mas embora não existam provas científicas da presença de substâncias químicas nos alimentos passíveis de produzir efeitos sexuais específicos, existem alimentos que contêm nutrientes e outras substâncias que podem alterar positivamente o humor e o bem-estar, e desta forma influenciar a líbido, predispondo à atividade sexual.

É importante alertar os leitores para que os alimentos supostamente afrodisíacos não são milagrosos. O verdadeiro poder afrodisíaco está no cérebro. Por isso, a melhor receita para todos os dias, é: ame-se muito, cuide da sua alimentação, relaxe e faça exercício físico! Uma dieta equilibrada, rica em alimentos naturais, pode melhorar tanto a saúde geral quanto o bem-estar sexual de forma segura e eficaz!

 

De que forma uma equipa interdisciplinar envolvendo psicólogos, nutricionistas e médicos, pode ajudar a melhorar a vida sexual de pacientes com obesidade?

Equilibrando o seu estado nutricional, corrigindo défices e/ou excessos nutricionais, normalizando alterações metabólicas e hormonais, melhorando a sua autoestima, e otimizando a relação com o corpo e com a comida, seguramente irão restabelecer a autoconfiança do doente, e com isso melhorar a sua vida sexual.  

                                                                                                 

O que falta fazer por estes doentes no nosso país?

Na minha opinião, em Portugal, as equipas especializadas que trabalham com estes doentes fazem tudo o que na mais recente evidência científica existe para a gestão e tratamento destas doenças. O que de facto faz falta é sensibilizar os profissionais de saúde para as manifestações, reconhecimento e referenciação precoce das perturbações do comportamento alimentar.

 

É possível estes doentes terem uma vida sexual ativa e prazerosa?

Claro que sim! Mas para tal é preciso que os doentes reconheçam ter uma doença, confiem nos profissionais, aceitem ser tratados e, acima de tudo, cumpram o tratamento que lhes é proposto.

 

Sexualmente realizado. Vida feliz. É o lema do Love with Pepper, concorda?

Absolutamente de acordo! Aumentar a literacia em saúde, e em particular para a saúde sexual, contribui sem dúvida para uma vida sexual mais realizada, e com isso uma vida plena e feliz!

 

Professora Doutora Inês Tomada, Nutricionista

 

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