A ACEITAÇÃO DA CONDIÇÃO, por Catarina Alves Costa
- LoveWithPepper
- 17 de mar.
- 6 min de leitura
Catarina Alves Costa, 32 anos, é casada, Mãe, arquiteta e é natural de Ponte de Lima. Está em fase de recuperação de um distúrbio alimentar, a anorexia.
Desde muito nova teve problemas com a alimentação e sofreu de compulsão alimentar.
Catarina conseguiu esconder de todo o seu núcleo de amigos, da família e até mesmo do seu marido este distúrbio alimentar. E assume que quando acontecia o seu problema de compulsão alimentar não conseguia ultrapassar e viver bem com esses episódios, vinha a culpa, a tentar restringir e a compensar em tudo. Mas esses começaram a interferir na sua vida e os dias deixaram de ser funcionais, tudo devido à comida.
Foi internada antes de engravidar e, quando engravidou teve tanto medo de uma recaída e de não estar bem para o seu filho, que isso levou esta jovem a outro estágio da doença – a ANOREXIA. Assim, a ingestão calórica extrema, passou para a restrição o que lhe afetou emocionalmente e posteriormente fisicamente.
O seu maior ato de amor é ser Mãe e é também o seu maior receio, pois tem medo de falhar para com os seus filhos no desafio que a maternidade lhe impôs e que esta doença lhe impõe.
Esta segunda gravidez está a ser encarada com maior leveza, e neste caso são gêmeos, logo um novo desafio pelo que esta jovem teme com as suas inseguranças e medos de uma recaída.
Desta segunda vez não foi internada, no entanto, no primeiro internamento esteve internada três meses numa clínica de reabilitação, nunca pensou que a sua situação fosse tão grave (e os que a rodeavam também não). Ainda agora com a ajuda de uma equipa multidisciplinar composta por psiquiatra, psicólogo, nutricionista esta jovem percebe que a sua luta passa por trabalhar um dia de cada vez para estar bem com ela própria.
Hoje, a tenta ter uma relação saudável com a comida, é acompanhada por uma nutricionista. Admite que não come açúcares, nem farinhas refinadas, porque acha que não tem a capacidade de o fazer.
Feliz, grávida de gémeos, de um menino e uma menina, não cria grandes expetativas, e quer viver um dia de cada vez. Espera chegar ao amanhã, traçar o que deseja e alcançar os seus objetivos.
Nesta entrevista ao Love with Pepper, Catarina, numa conversa intimista sem tabus abre a sua alma e o seu coração para nos falar sobre a sexualidade na anorexia e a sua missão de vida.
O que é anorexia?
Para mim a anorexia foi um estágio da minha doença, que experienciei, relativamente a um distúrbio alimentar que tenho e que me afeta de forma física e emocional.
Acha que no seu caso a anorexia e a gravidez fortaleceu o seu casamento?
Fortaleceu, sem dúvida. Tenho a sorte de ter um marido espetacular, muito compreensivo e está sempre ao meu lado. Mas há sempre um esforço a fazer pois esta doença afeta não só a pessoa e, sem dúvida, afeta a família, o casamento e as relações mais próximas. O meu marido sempre se interessou e ainda se interessa por aprender o que é que se passa comigo.
De que forma é que a anorexia afetou a dinâmica conjugal, como por exemplo, a sexualidade?
Isso não foi só a anorexia, a compulsão alimentar também. Quando estava numa fase mais grave, prejudicou a minha relação sexual. Porque já não gostava de mim, não gostava do meu corpo, tinha dificuldade em mostrar o meu corpo e isso prejudicava o relacionamento com o meu companheiro. Aconteceram episódios em que tinha dificuldade em fazer a higiene diária, porque havia uma repulsa do meu corpo, que eu não queria tocar em mim, e isso refletia-se consequentemente nas relações com os outros. Se não queria tocar em mim, não queria que o outro também me tocasse e me visse.
Por exemplo, a questão da masturbação que é um ato que proporciona o prazer na própria pessoa, eu não tinha essa capacidade de o fazer, porque tinha uma repulsa e não conseguia perceber o sentido que podia fazer na minha vida. Outro exemplo, um relacionamento físico ser muito mais do que o ato da penetração. Isto foi desmistificado, mas teve a ver com uma aceitação e compreensão do meu estado e do meu corpo, um desenvolvimento de autoestima, de amor próprio para conseguir ultrapassar essas questões e também com ajuda da psicoterapia.
Qual a relação com o seu corpo e como é que o vê?
Neste momento estou e gosto de estar grávida de gémeos, talvez por ser um estado de graça (BRINCA!). De certa forma, tenho de ter consciência, ter conhecimento que a gravidez de gémeos não é sequer semelhante à minha primeira gravidez. O meu corpo sofreu uma alteração muito grande. Mas como estou num processo de recuperação, é viver um dia de cada vez e que tenho de gostar de mim e aceitar-me como sou.
Com as mudanças do seu corpo, sentiu que o desejo sexual, excitação e libido alterou a forma como vivia a sexualidade e a intimidade?
Nesta segunda gravidez, como já houve um trabalho prévio nesse campo, sinto que mantive. O facto de ter falado sobre o assunto, trabalhar a nível profissional com um psicólogo, fez com que mantivesse a minha líbido e de certa forma não ficasse tão apreensiva, nem tão constrangida.
Como é que lidou com a anorexia estando grávida e sendo Mãe?
O que me vale neste momento é ser MÃE e não é fácil ver o peso aumentar e também há sempre um receio (mesmo que pequeno) de uma recaída. A minha família é a minha base de apoio. Sou Mãe e quero ser uma Mãe na minha melhor versão e capacidade e isso pode ajudar com que não caia nas garras desta doença. Sinto que é preciso mencionar que neste processo todo houve muito trabalho por parte do meu marido, também por parte dos meus pais e isso fez com que melhorasse a nossa relação enquanto família.
Durante a gravidez, houve desafios adicionais relacionados à anorexia e às mudanças do seu corpo. Como lidou com isso?
Tenho um programa que me apoia e ajuda diariamente. Além disso, faço parte de um grupo de pessoas com o mesmo problema que eu e falam comigo, onde posso partilhar, sei que sou entendida a 100% e que não sou julgada, isso é muito importante. Tem sido fundamental para a minha recuperação.
Quais foram os momentos mais desafiadores durante o tratamento e a recuperação?
O facto de estar internada três meses sem o contato da família e fechada numa casa, foi um dos maiores desafios que eu tive, foi complicado.
Sendo a Catarina uma mulher muito bonita, de que forma a anorexia teve impacto na sua autoestima e na sua sexualidade?
Classifico esta doença também de autoestima, porque não existe nenhum doente com distúrbios alimentares com esta em alta. Mas, na verdade desvalorizava-me e não tinha qualquer autoestima e isso afetava-me a todos os níveis, quer profissional, pessoal e sexual. Trabalho diariamente estes campos.
Qual a sua relação com o toque?
A minha área é artes plásticas, sou arquiteta, sempre gostei muito de pintar e tudo DO manual do tato. O toque para mim sempre foi muito importante. Estou a aprender a viver, a sentir realmente o toque de mim mesma. Consigo, acariciar o meu filho e sentir e tentar fazer o contorno do nariz dele. Mas tenho dificuldades em pôr essa sensibilidade tão aprofundada em mim, sinto que há uma tendência de deformar a minha imagem.
De que forma é que a anorexia afetou sua saúde mental?
Esta doença é mental e emocional, começa com uma depressão e falta de autoestima, depois manifesta-se fisicamente.
Quais foram as estratégias mais eficazes no tratamento desta doença?
O psiquiatra também é um elemento fundamental neste processo. A medicação é para estabilizar níveis e percebo que não vai resolver os problemas. Por isso, uma das maiores estratégias é o autoconhecimento, é saber as minhas fragilidades, os meus medos, as minhas inseguranças e usar ferramentas para fazer esse estudo. Todos os dias faço leituras relacionadas esta doença, tento meditar, falo com alguém sobre um problema e faço um plano alimentar para me guiar durante o dia, isto tudo me ajuda.
Como é que uma relação sobrevive a isto tudo?
AMOR. Também ter a capacidade de ter paciência, a mente aberta e compreensão.
Sente-se uma mulher segura a nível sexual?
A minha tendência é ser sempre muito insegura, mas como tenho trabalhado o suficiente no autoconhecimento posso dizer que sim conscientemente.
Quais são os mitos sobre saúde sexual e transtornos alimentares acha importante desmistificar?
Tudo tem que ser falado com naturalidade como qualquer outro assunto. O facto de não se falar, muitas vezes é causa de muitos problemas. Criam-se tabus, inseguranças e medos.
Na sua opinião, o tratamento para esta doença aborda de forma suficiente a relação entre saúde mental, física e sexual?
O tratamento na clínica não, e no meu caso fui eu que levei esse assunto para psicoterapia, por minha iniciativa, porque é muito importante. Senti-me apoiada e correspondida pelos profissionais de saúde, no entanto, saliento, sou seguida a nível particular.
O que falta fazer neste país por estes doentes com patologias como anorexia, bulimia e obesidade?
Tem de haver uma maior comunicação e concentração entre as áreas envolvidas e trabalhar no sentido da recuperação, da nutrição, da psicoterapia, e psiquiatria e também no desenvolvimento e crescimento espiritual. Tem de ser tudo uma simbiose e uma equipa multidisciplinar fazer com que este processo de desenvolva de forma positiva.
Apesar de todas as adversidades o sexo é bom?
Estando grávida não é tao bom, mas é bom.
Sexualmente realizada. Vida feliz. É o lema do Love with Pepper, concorda?
Sim, mas não é só. A sexualidade pode contribuir para a felicidade.
Catarina Alves Costa, Arquiteta
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